quarta-feira, 5 de maio de 2010

Apesar de...Com muito pesar

Não tenho parente militar. Sempre me pus do lado de cá, uma civil com ideias e ideais libertinários e libertinos. Fico chocada quando releio os casos de torturas ocorridos nos tempos negros da ditadura.
Lembro-me da música “Angélica”, de Chico Buarque e Miltinho, motivada pelo assassinato de Zuzu Angel em 1976 pelo governo militar. Eles queriam impedir suas investigações sobre o paradeiro de seu filho, Stuart Edgard Angel Jones, sequestrado, torturado e morto pelos agentes da ditadura. Para quem não lembra da música aí vai à letra:

“Quem é essa mulher/Que canta sempre esse estribilho?/ Só queria embalar meu filho/Que mora na escuridão do mar/Quem é essa mulher/Que canta sempre esse lamento?/ Só queria lembrar o tormento/Que fez meu filho suspirar/Quem é essa mulher/Que canta sempre o mesmo arranjo?/ Só queria agasalhar meu anjo/E deixar seu corpo descansar/Quem é essa mulher/Que canta como dobra um sino?/ Queria cantar por meu menino/Que ele já não pode mais cantar”

“Angélica” destaca a face repetitiva da memória do mal, que vive de espiar uma falta que não pode ser sanada a não ser com a entrega do corpo do filho. O episódio se popularizou a partir do filme de Sérgio Rezende, “Zuzu Angel” em 2006. Trinta anos depois dos fatos, pus-me assistir o filme e o sentimento foi de total repulsa, percebo que na minha memória pulsa a dor e indignação pela ditadura imposta em 1964.A ânsia dessa mãe em reencontrar o filho para enterrá-lo, está presente em outras tantas Angélicas, como a própria Zuzu. Todas desejam recuperar a paz, dando um fim digno a seus filhos e parentes.



O que me leva a escrever sobre tal assunto, é que nesta semana o Supremo Tribunal Federal (STF), resolveu manter inalterada a Lei da Anistia. A medida contrariou uma revisão pleiteada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que permitiria a abertura de processos contra acusados de torturar presos políticos durante a ditadura militar.
“A decisão coloca um selo judicial de aprovação aos perdões estendidos àqueles no governo militar que cometeram crimes contra a humanidade”, afirmou o pesquisador da Anistia Internacional para o Brasil, Tim Cahill, em comunicado. Ainda conforme o pesquisador: “Isto é uma afronta à memória dos milhares que foram mortos, torturados e estuprados pelo Estado que deveria protegê-los. As vítimas e a seus familiares ficaram inacessíveis à verdade, à justiça e à reparação”.
Estamos sendo hipócritas ao esconder debaixo do tapete, a poeira que nos sufoca, a ditadura. O fato não nos causará amnésia, mas um má digestão coletiva que se retratará na história.
A Anistia chegou ao Brasil apenas em 1979, alinhavada pelos responsáveis da ditadura militar e seus aliados civis, no caso como portadora da impunidade. Esperávamos que depois de tanto tempo, “Zuzus” pudessem reconstruir suas vidas com as verdades sobre seus filhos e parentes desaparecidos. Cabe ao Estado abrir seus arquivos (incluindo os das forças armadas) visando esta busca pela verdade. Sendo assim, termino com outra frase do Chico: “Apesar de você (STF) / amanhã há de ser outro dia... Quando chegar o momento/ Esse meu sofrimento /Vou cobrar com juros. Juro!”.

3 comentários:

Anônimo disse...

Minha querida e sempre lembrada amiga Fatinha:

Somos atores num grande teatro.
Voce me fez lembrar dos meus tempos de Gerente, em empresas, quando ainda era um executivo.
Visando mostrar aos meus gerenciados(pessoas como nós), o que fazíamos ali, sempre lhes questionava:
Qual é a peça mais importante de um carro...?
Alguns diziam ser o motorista, outros o motor, outros as rodas, etc...etc.....
Perguntava então se eu tirasse um fusível(peça de R$ 0,10).
O carro não andaria, por causa de uma "pecinha" de 10 centavos.
Todas as peças são importantes, apesar de algumas delas serem mais caras que outras.
Assim somos nós; quantos de nós ficamos indignados com os massacres das idades passadas...? Passaram e só são vistos em Livros de História. Quantos de nós nos indignamos com Biafra....? Quantos de nós nos opusemos a Ruanda ou Moçambique....?
Li há pouco que o Brasil está mandando 340 caminhões VW para o Haiti; há algum tempo o Nordeste carecia de água e os caminhões pipa pararam de rodar porque o Governo Federal não havia repassado os recursos para pagar o frete. Eram 50 caminhões.
Fico a questionar nossos pais. Será que nos preparam para um mundo que não existia...?
Ou nós estamos vendo um mundo que não existe...?
Circula na NET um e-mail falando dos que temos 50 ou mais, relembrando os tempos bons que vivemos.
Há pouco devolvi prá um amigo questionando o seguinte:
Quem foi (ou quem são) os responsáveis pelo mundo que temos hoje...?
A Resposta é uma só:
NÓS MESMOS.
PENSEMOS, SE FOR POSSÍVEL.
E OS PAIS E MÃES, DE TODOS OS LADOS, QUE NÃO ALCANÇARAM A MÍDIA...? E AS HISTÓRIAS, OU ESTÓRIAS, NÃO CONTADAS...?
ESTOU COM UMA VAGA RESERVADA NA REMONTA( LEMBRA-SE DELA...?), PELO MEU QUERIDO IRMÃO.

Abracim e Queijim,

Juanito

Mauro Senra disse...

Estou de acordo com seu texto, mas quando "eles" prepararam a anistiam, também se anistiaram.
Covardes!Odeio essa época.

Sara Siqueira disse...

Adoro a música Angélica! Me dá vontade de chorar toda vez que a ouço, muito boa a sua lembrança!!!