segunda-feira, 18 de janeiro de 2010



Ando sem escrever nada. Sofro com o efeito “el niño” e, se não fosse à insistência de um amigo, pemaneceria em alhures. Ando tão sem versos que mal posso encher meus olhos com palavras. O Sol morma-me, mais pareço uma panela em banho-maria sendo cozida lentamente nos meses de verão. E como escrever frente à desgraça diária, do cheiro forte da morte? Sufoco-me com toneladas de terra e minhas mãos se contraem, negam a escrever, pois andam ocupadas demais em esfregar os olhos vermelhos de choro.
Sou apenas uma exploradora da noite, um corisco em busca do vento noroeste. Procuro nos meus escombros lembranças farroupilhadas de um reino mal acabado. Saboto a geladeira, encho a pança de guloseimas na expectativa que o ato de comer venha substituir minhas carências.
Ninguém mais assovia pelas ruas, deve ser por causa das músicas eletrônicas ou será que esqueceram? Eu também sabia fazer tanta coisa e deixei de fazer. O riso, antes frouxo, é comedido homeopaticamente. Quando tinha menos idade sonhava com o futuro, agora quero o lento cerzir das teias das aranhas. A vida é apenas um empréstimo. É preciso talhar ritos, arrepiar-se, reviver o medo, encantar-se com a ternura, devorar com voracidade cada instante como se fosse o último.
De certo, este não é um dos meus melhores textos e nem poderia ser, porque estou a desafiar a inanição de palavras que se põe em mim. Faltam-me ilusões. Amanhã quem sabe vencerei dragões, derrubarei moinhos, por hoje chega de lamentação.
Se este não é um bom recomeço, prometo cavar minas no peito, criar barricadas para que no próximo verão nenhum “el niño” contagie a minha estação. Enquanto isso, sigo trilhas como quem segue a procissão.









5 comentários:

Marcelino Tostes Padilha Neto disse...

A Fátima deve entender que tem "obrigação" de escrever: e escrever sempre! Textos e Poemas de quem tem o dom da palavra! Vai assim como que semeando as ideias encontrando para cada uma delas a palavra exata, enm mais nem menos, sempre no ponto! Fátima preguiçosa essa que deixa a gente passar por aqui ávidos por sua sensibilidade e decepcionados por um espaço vazio!
Escreve, Fátima! Põe pra fora essa mulher poesia que me acalenta nesse mormaço desse verão tão quente! Beijão!

ELIZETE disse...

Fátima querida,SEU TEXTO E QUASE UM RAIO X DE COMO TENHO SENTIDO ESSES DIAS TÃO QUENTES E TANTOS HORRORES.
Um grande beijo... É um alento pra alma ter alguém a decifrar o que sentimos bjus.

Tais Luso disse...

Fátima, andando pelo seu blog, li belos poemas, mas parei aqui, neste texto que me tocou. Sai fluindo, como se fosse um grito de ajuda, uma inquietação que toma conta dos que escrevem; dos que carregam esse fardo - da escrita - que faz falta, que impulsiona e que alivia os corações sensíveis daqueles que têm esta atividade.

Meu carinho
Tais luso

Mauro Senra disse...

Minha Cara Maria de Fátima Cerqueira, o capricho de seu blog é algo admirável no sentido de apresentação.
Melhor ainda, está o conteúdo atualizado e pertinente, trazendo questões importantes e transformadoras.
A poesia é o que mais me encanta, minha alma transborda de felicidade e alegria.
Sua pessoa é especialmente inesquecível.
Com afeto sincero, Mauro Luiz Senra Fernandes - Além Paraíba - Minas Gerais.

Claudia disse...

Lindas poesias de uma bela pessoa. Adoro seus versos! Beijos da Cláudia